domingo, 12 de dezembro de 2010

Redecard

     Justino e seu amigo, Fuleragem, bebiam cerveja em um bar, quando aparece um miserável e lhes pede algum dinheiro.
     Fuleragem pergunta: - você aceita cartão de crédito?
     Justino acha graça, mas só o suficiente para externar um leve sorriso.
     Enquanto Fuleragem gargalhava, o miserável saca uma máquina de cartões do bolso de sua calça. Justino se levanta e dá um soco na cara do miserável, que cai ao chão. Fuleragem já não acha nada engraçado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Jussara

     Jussara tinha por volta de nove anos de idade e cuidava de mais ou menos quinze porquinhos-da-índia. Tratava-os com muito carinho, dava-lhes banho, alimentava-os regularmente, limpava sua casa, enfim, era o elo de responsabilidade de Jussara com as vidas que dela dependiam.
     Havia um afeto muito grande por aqueles roedores. Eles, no entanto, pareciam não demonstrar muito afeto, mas eram dóceis e vivazes. Jussara tinha orgulho de ser a mantenedora dos porquinhos-da-índia e se alegrava muito cada vez que eles se reproduziam.
     Um dia, ao voltar da escola, viu que seus porquinhos estavam sendo perseguidos por um cachorro. Ficou desesperada. Atirou pedras no cachorro por várias vezes. Se o cachorro tinha vontade de matar seus bichinhos, ela tinha vontade de matar o cachorro. Conseguiu acertá-lo, mas não lhe fez grande mal.
      Foi o primeiro contato direto de Jussara com a morte. Estavam quase todos mortos ou mortalmente feridos. Não conseguia parar de chorar. Não entendia porque aquilo acontecera. Era algo brutal. Queria seus bichos vivos. Era impossível. Ficou triste por muitos dias. Decidiu que não cuidaria mais de bicho algum. Brincava com animais de amigos, achava bonito vê-los, mas não os teria mais como seus.
      Jussara hoje é uma mulher adulta, sem filhos, ama seus pais, seus irmãos e seus amigos. Não sabe o que é perder um ente querido e não sabe como será quando perder, mas teme que a dor seja, ao menos, parecida com a que sentiu pela perda dos pequenos animais. A vida não tem lhe ensinado a ser forte. Jussara vive viajando e não sonha com nada para chamar de seu. A vida tem sido fuga.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No auditório

era um evento grande, um concerto de rock. o auditório estava lotado. ela estava em um dos corredores, próxima às cadeiras de trás, conversando com algumas pessoas. ela estava longe dele. ele, por fazer parte da organização do evento, quando não estava no palco ou no camarim conversando com os artistas, estava na primeira fila de cadeiras, avaliando o andamento do show. esse auditório localizava-se dentro de uma galeria de artes, havia corredores compridos, quadros nas paredes, salas com vitrines...
   existia uma coisa que o preocupava mais que o concerto: ela. preocupado com o prossecução desse grande evento, ele também se preocupava em dar atenção a ela. estaria ela gostando daquilo: do show e da preocupação dele com o show? foi então que, dotado de uma imensa carência afetiva, ele saiu a procurá-la. ela não estava mais naquele lugar do corredor. onde estaria? quem seriam as pessoas com quem conversava? ele não as conheceu nem as reconheceria. Procurou pelos corredores, pelas salas com vitrines, nos banheiros, onde teve a sensação de estar em uma gaiola flutuante lotada de galinhas, muitas delas, mortas. procurou, procurou, procurou...
     numa ante-sala, em uma das entradas do auditório, ele ouviu um comentário que pareceu ser sobre ela. não quis verificar sua desconfiança. entrou no auditório e passou a assistir o show à distância.

sábado, 21 de agosto de 2010

Buscando a cura

Em memória de Roberto Farias


José Leguelhé sentia umas pequenas dores de cabeça, não achou que era grave, mas seria interessante saber o porquê das dores, afinal poderia ser algum outro problema do organismo. Então, ele procurou um posto de saúde próximo a sua casa, mas ficou sabendo que só poderia marcar a consulta quinze dias depois e que deveria chegar bem cedo. Passado os quinze dias, lá se foi Leguelhé marcar sua consulta às sete horas da manhã. Não marcou. O posto de saúde estava mais para posto de doenças. Havia um amontoado de pessoas. Percebeu que chegar bem cedo não era suficiente e que algumas pessoas haviam chegado cedo da noite anterior, achou que assim marcaria sua consulta, quinze dias depois. Foi o que fez.
Os dias foram passando, sua dor de cabeça aumentando e lá se foi José Leguelhé marcar sua consulta às 6h da tarde, do dia anterior. Tentou passar a noite conversando com seus companheiros, também enfermos, mas foi se cansando, posto que havia passado o dia trabalhando dobrado, para compensar o atraso da chegada ao trabalho no dia seguinte. Terminou por cochilar no banco de madeira da parte externa do posto, onde foi pego pelo sereno de quase toda a noite, acordou tossindo e espirrando. Amanheceu. Depois de toda confusão (muitas pessoas tentavam, e alguns conseguiam, furar a enorme fila desordenada) conseguiu marcar a consulta para quinze dias depois.
As coisas não estavam boas. Sua dor de cabeça não passava e agora se agravava com a tosse e os espirros, e ainda, dias antes da consulta, começou a ter febre. Não trabalhava direito, não dormia direito, enfim, não tinha uma vida como a Constituição Federal dizia que ele tinha direito.
No dia da consulta, José Leguelhé estava oito quilos mais magro. O médico que o atendeu percebeu que aquele homem estava mal, e tinha pressa, por isso, prescreveu-lhe uma bateria de exames e pediu-lhe que saísse da sala rapidamente.
José Leguelhé levou quinze dias para agendar os exames, quinze para receber o resultado, quinze para marcar nova consulta e quinze dias para ser consultado. Dois novos problemas vinham se juntar aos antigos: tinha insuficiência respiratória e se locomovia com muita dificuldade.
Ao ver o resultado dos exames seu médico ficou apavorado. Sugeriu sua imediata internação. O que teria acontecido àquele homem dez quilos mais magro que da última vez? Não esqueçamos que o resultado dos exames era de quarenta e cinco dias antes.  Teria ele então piorado nesse período? Descobriu-se um coágulo no lado esquerdo de seu cérebro e a falência parcial de parcialmente todos os seus órgãos. Esses problemas poderiam ter sido tratados a base de remédios, se tivessem sido constatados precocemente. Ainda bem que José Leguelhé teve a idéia de procurar o médico quando tinha pequenas dores de cabeça. Como ele estaria se não tivesse buscado tratamento? Seu caso era grave. Somente uma cirurgia poderia curá-lo. Operar o lado esquerdo de seu cérebro resolveria grande parte de seus problemas. Os demais (problemas) se recuperariam com um tratamento intensivo.
No mês que passou internado para a cirurgia, recuperou um pouco da vitalidade, engordou um pouco mais, até, que, contraiu uma infecção hospitalar. Isso liquidou um de seus rins, mas ainda havia uma chance: a cirurgia.
Chegou o dia da cirurgia. José Leguelhé, esperançoso e, por isso, ansioso, teve de ser sedado e encaminhado ao centro cirúrgico. Os médicos não fizeram nada direito, pelo contrario, fizeram a cirurgia no lado direito de seu cérebro. Nem parentes nem amigos reclamaram seu corpo. Então seu cadáver foi doado a faculdade de medicina da cidade. A esperança da melhora na saúde pública continua, muito mais pela falta de opção que pela própria esperança.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A escolha do mestre

Por volta do século XVI no Brasil, uma tribo se reunia para a escolha do novo líder.
Fala o mestre-de-cerimônias:
- Estamos hoje aqui reunidos para a sucessão de nosso mestre.
O mestre a ser substituído acabara de morrer e havia liderado a tribo por quase noventa anos.
- A escolha se dará da seguinte forma: aqui está uma cuia com água e os candidatos a mestre precisam dizer o que vêem e nos convencer de suas idéias.
O primeiro candidato:
- Eu vejo uma lição de vida, pois vimos da água e como a água dos rios precisamos nos desviar dos obstáculos e irrigar outras vidas em nós e a nossa volta.
Todos o aplaudiram e o parabenizaram.
Segundo candidato:
Eu vejo o equilíbrio espiritual. Às vezes, somos levados a ver a cuia ora meio cheia ora meio vazia, mas precisamos manter o equilíbrio, estarmos conscientes de que é apenas uma cuia com água. Meio cheia ou meio vazia é apenas uma das muitas possibilidades.
Aplausos e felicitações.
Um grupo de tropeiros fortemente armados invade a reunião, deixando apavorados todos que ali estavam.
Um dos tropeiros toma a palavra:
- O que está acontecendo aqui? Isso é um congresso de maricas?
Muito exaltado, ele chuta a cuia. Aumentando o tormento das pessoas da tribo.
Antes calado pela entrada repentina da tropa, o mestre-de-cerimônias retoma a palavra:
- A partir de agora, amigos, esse é o nosso novo mestre.
O mestre-de-cerimônias e os demais passam a reverenciar o tropeiro, que nada entende, mas gosta muito da idéia.

Radicalismo

Todo o tempo a cem por cento
Todo o tempo a cem por cento
Todo o tempo a cem por cento
Todo o tempo a cem por cento

O ciúme e o rato

Ele e ela estavam juntos no ônibus e iam a faculdade. O ônibus parou próximo a biblioteca e ela, ali desceu e ficou a conversar com um amigo. Ele, que havia continuado no ônibus, pediu para parar o veículo, desceu e enciumado queria saber o que ela conversava com o amigo. Havia muitas pessoas por toda a faculdade, porque conversar justamente com aquele amigo? Enquanto o amigo explicava a ele o que acontecia, algumas pessoas se agitavam ao redor ônibus, isso porque, de repente, surgiu por trás do veículo uma meia saltitante vermelha e amarela. Da meia saiu um rato vermelho. Enquanto o rato ajeitava seu chapéu de palha, todos ficaram muito curiosos: queriam saber o que havia em sua mala amarela. O rato entrou debaixo do ônibus e desapareceu.

Com sal e limão

Um homem vem cambaleando pela estrada e cai
Uma mulher, vestindo uma blusa bem comportada, saia jeans e com uma bíblia embaixo do braço, vê o momento da queda do homem e corre até ele.
Ele está um pouco ofegante e prestes a cerrar os olhos.
Ela percebe que ele se feriu com a garrafa de vidro que trazia e se desespera: - Meu Deus! você está ferido! Você vai morrer!
Ele demonstra alguma agonia e seus olhos se fecham.
Ei, moço! Acorde, vamos, acorde! Diga-me, você aceita Jesus? Vamos, diga. Aceita?
Ela o sacode e ele, como quem fala dormindo, responde:
- Eu aceito, mas traz o meu com sal e limão, por favor.