sábado, 21 de agosto de 2010

Buscando a cura

Em memória de Roberto Farias


José Leguelhé sentia umas pequenas dores de cabeça, não achou que era grave, mas seria interessante saber o porquê das dores, afinal poderia ser algum outro problema do organismo. Então, ele procurou um posto de saúde próximo a sua casa, mas ficou sabendo que só poderia marcar a consulta quinze dias depois e que deveria chegar bem cedo. Passado os quinze dias, lá se foi Leguelhé marcar sua consulta às sete horas da manhã. Não marcou. O posto de saúde estava mais para posto de doenças. Havia um amontoado de pessoas. Percebeu que chegar bem cedo não era suficiente e que algumas pessoas haviam chegado cedo da noite anterior, achou que assim marcaria sua consulta, quinze dias depois. Foi o que fez.
Os dias foram passando, sua dor de cabeça aumentando e lá se foi José Leguelhé marcar sua consulta às 6h da tarde, do dia anterior. Tentou passar a noite conversando com seus companheiros, também enfermos, mas foi se cansando, posto que havia passado o dia trabalhando dobrado, para compensar o atraso da chegada ao trabalho no dia seguinte. Terminou por cochilar no banco de madeira da parte externa do posto, onde foi pego pelo sereno de quase toda a noite, acordou tossindo e espirrando. Amanheceu. Depois de toda confusão (muitas pessoas tentavam, e alguns conseguiam, furar a enorme fila desordenada) conseguiu marcar a consulta para quinze dias depois.
As coisas não estavam boas. Sua dor de cabeça não passava e agora se agravava com a tosse e os espirros, e ainda, dias antes da consulta, começou a ter febre. Não trabalhava direito, não dormia direito, enfim, não tinha uma vida como a Constituição Federal dizia que ele tinha direito.
No dia da consulta, José Leguelhé estava oito quilos mais magro. O médico que o atendeu percebeu que aquele homem estava mal, e tinha pressa, por isso, prescreveu-lhe uma bateria de exames e pediu-lhe que saísse da sala rapidamente.
José Leguelhé levou quinze dias para agendar os exames, quinze para receber o resultado, quinze para marcar nova consulta e quinze dias para ser consultado. Dois novos problemas vinham se juntar aos antigos: tinha insuficiência respiratória e se locomovia com muita dificuldade.
Ao ver o resultado dos exames seu médico ficou apavorado. Sugeriu sua imediata internação. O que teria acontecido àquele homem dez quilos mais magro que da última vez? Não esqueçamos que o resultado dos exames era de quarenta e cinco dias antes.  Teria ele então piorado nesse período? Descobriu-se um coágulo no lado esquerdo de seu cérebro e a falência parcial de parcialmente todos os seus órgãos. Esses problemas poderiam ter sido tratados a base de remédios, se tivessem sido constatados precocemente. Ainda bem que José Leguelhé teve a idéia de procurar o médico quando tinha pequenas dores de cabeça. Como ele estaria se não tivesse buscado tratamento? Seu caso era grave. Somente uma cirurgia poderia curá-lo. Operar o lado esquerdo de seu cérebro resolveria grande parte de seus problemas. Os demais (problemas) se recuperariam com um tratamento intensivo.
No mês que passou internado para a cirurgia, recuperou um pouco da vitalidade, engordou um pouco mais, até, que, contraiu uma infecção hospitalar. Isso liquidou um de seus rins, mas ainda havia uma chance: a cirurgia.
Chegou o dia da cirurgia. José Leguelhé, esperançoso e, por isso, ansioso, teve de ser sedado e encaminhado ao centro cirúrgico. Os médicos não fizeram nada direito, pelo contrario, fizeram a cirurgia no lado direito de seu cérebro. Nem parentes nem amigos reclamaram seu corpo. Então seu cadáver foi doado a faculdade de medicina da cidade. A esperança da melhora na saúde pública continua, muito mais pela falta de opção que pela própria esperança.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A escolha do mestre

Por volta do século XVI no Brasil, uma tribo se reunia para a escolha do novo líder.
Fala o mestre-de-cerimônias:
- Estamos hoje aqui reunidos para a sucessão de nosso mestre.
O mestre a ser substituído acabara de morrer e havia liderado a tribo por quase noventa anos.
- A escolha se dará da seguinte forma: aqui está uma cuia com água e os candidatos a mestre precisam dizer o que vêem e nos convencer de suas idéias.
O primeiro candidato:
- Eu vejo uma lição de vida, pois vimos da água e como a água dos rios precisamos nos desviar dos obstáculos e irrigar outras vidas em nós e a nossa volta.
Todos o aplaudiram e o parabenizaram.
Segundo candidato:
Eu vejo o equilíbrio espiritual. Às vezes, somos levados a ver a cuia ora meio cheia ora meio vazia, mas precisamos manter o equilíbrio, estarmos conscientes de que é apenas uma cuia com água. Meio cheia ou meio vazia é apenas uma das muitas possibilidades.
Aplausos e felicitações.
Um grupo de tropeiros fortemente armados invade a reunião, deixando apavorados todos que ali estavam.
Um dos tropeiros toma a palavra:
- O que está acontecendo aqui? Isso é um congresso de maricas?
Muito exaltado, ele chuta a cuia. Aumentando o tormento das pessoas da tribo.
Antes calado pela entrada repentina da tropa, o mestre-de-cerimônias retoma a palavra:
- A partir de agora, amigos, esse é o nosso novo mestre.
O mestre-de-cerimônias e os demais passam a reverenciar o tropeiro, que nada entende, mas gosta muito da idéia.

Radicalismo

Todo o tempo a cem por cento
Todo o tempo a cem por cento
Todo o tempo a cem por cento
Todo o tempo a cem por cento

O ciúme e o rato

Ele e ela estavam juntos no ônibus e iam a faculdade. O ônibus parou próximo a biblioteca e ela, ali desceu e ficou a conversar com um amigo. Ele, que havia continuado no ônibus, pediu para parar o veículo, desceu e enciumado queria saber o que ela conversava com o amigo. Havia muitas pessoas por toda a faculdade, porque conversar justamente com aquele amigo? Enquanto o amigo explicava a ele o que acontecia, algumas pessoas se agitavam ao redor ônibus, isso porque, de repente, surgiu por trás do veículo uma meia saltitante vermelha e amarela. Da meia saiu um rato vermelho. Enquanto o rato ajeitava seu chapéu de palha, todos ficaram muito curiosos: queriam saber o que havia em sua mala amarela. O rato entrou debaixo do ônibus e desapareceu.

Com sal e limão

Um homem vem cambaleando pela estrada e cai
Uma mulher, vestindo uma blusa bem comportada, saia jeans e com uma bíblia embaixo do braço, vê o momento da queda do homem e corre até ele.
Ele está um pouco ofegante e prestes a cerrar os olhos.
Ela percebe que ele se feriu com a garrafa de vidro que trazia e se desespera: - Meu Deus! você está ferido! Você vai morrer!
Ele demonstra alguma agonia e seus olhos se fecham.
Ei, moço! Acorde, vamos, acorde! Diga-me, você aceita Jesus? Vamos, diga. Aceita?
Ela o sacode e ele, como quem fala dormindo, responde:
- Eu aceito, mas traz o meu com sal e limão, por favor.