Jussara tinha por volta de nove anos de idade e cuidava de mais ou menos quinze porquinhos-da-índia. Tratava-os com muito carinho, dava-lhes banho, alimentava-os regularmente, limpava sua casa, enfim, era o elo de responsabilidade de Jussara com as vidas que dela dependiam.
Havia um afeto muito grande por aqueles roedores. Eles, no entanto, pareciam não demonstrar muito afeto, mas eram dóceis e vivazes. Jussara tinha orgulho de ser a mantenedora dos porquinhos-da-índia e se alegrava muito cada vez que eles se reproduziam.
Um dia, ao voltar da escola, viu que seus porquinhos estavam sendo perseguidos por um cachorro. Ficou desesperada. Atirou pedras no cachorro por várias vezes. Se o cachorro tinha vontade de matar seus bichinhos, ela tinha vontade de matar o cachorro. Conseguiu acertá-lo, mas não lhe fez grande mal.
Foi o primeiro contato direto de Jussara com a morte. Estavam quase todos mortos ou mortalmente feridos. Não conseguia parar de chorar. Não entendia porque aquilo acontecera. Era algo brutal. Queria seus bichos vivos. Era impossível. Ficou triste por muitos dias. Decidiu que não cuidaria mais de bicho algum. Brincava com animais de amigos, achava bonito vê-los, mas não os teria mais como seus.
Jussara hoje é uma mulher adulta, sem filhos, ama seus pais, seus irmãos e seus amigos. Não sabe o que é perder um ente querido e não sabe como será quando perder, mas teme que a dor seja, ao menos, parecida com a que sentiu pela perda dos pequenos animais. A vida não tem lhe ensinado a ser forte. Jussara vive viajando e não sonha com nada para chamar de seu. A vida tem sido fuga.