quarta-feira, 28 de março de 2012

Tragédia

Caminhávamos pela estrada asfaltada que corta a floresta. Era noite escura. À direita, à beira da estrada, cadáveres de pessoas, bichos mutilados, muitos a queimar. Poucos de nós tínhamos condições de caminhar. Chorávamos o quanto podíamos e não podíamos muito. O caminho ainda seria longo, sobretudo, para os mais jovens, mas eles pareciam ter mais força e acho que tinham mesmo.
- O que teria acontecido ao motorista do caminhão de bois? O que o fez vir contra nosso ônibus?
Só alguns de nós conseguíamos nos perguntar isso.
- Que diferença faria saber?
- Algumas respostas, por mais que não justifiquem, ao explicar elas confortam, numa espécie de misericórdia a qualquer das partes.
À entrada da cidade, à qual chegávamos, havia uma igreja. A maioria de nós, já poucos, se sentiu socorrido. As pessoas daquela igreja pareciam ter algumas respostas e, melhor que isso, pareciam querer nos confortar. Eu me sentia falso diante delas e dispensei a sua ajuda.
- Teria eu aprendido a viver sem respostas? As angústias seriam iguais para todos?
- Certamente não. Quem faz perguntas vive mais angustiado e quem não as faz encontra a verdade, nem sempre verdadeira ou reconfortante.