Segundo Leyla Perrone-Moisés, “Uma das principais características da transformação sofrida pelas obras literárias, a partir do fim do século XIX, é a multiplicação de seus significados, que permitem e até mesmo solicitam uma leitura múltipla”. O contato com o romance Budapeste de Chico Buarque não deixa dúvidas que a leitura desse romance não pode ser outra que não leitura múltipla. A começar pelo livro enquanto objeto.
Ao abrir o livro, é possível perceber que a contracapa parece ser reflexo da capa, como num espelho, duplicando a sua imagem. No entanto, assim como a vaca se olhava no espelho e se via borboleta, à altura do nome do escritor do livro, Chico Buarque, aparece o nome de um personagem do romance, também escritor, José Costa.
Por que um nome tão comum quanto José estaria ali como um reflexo alterado do nome do autor do romance? Por que Costa? Se um livro é um corpo, a contracapa é as suas costas. Estaria o personagem por trás do autor? Ou seria o contrário? Costa, segundo o minidicionário Aurélio, também pode significar “litoral, região banhada pelo mar”. Região pela qual se teria acesso ao continente? Talvez, depende da costa ou do Costa.
Outra pluralidade de significado salta ao se falar de um deus “desumano”. Pela recorrência de uso do vocábulo “desumano”, se chegará primeiro àquilo que é cruel, capaz de maldades. Tal ideia fugirá da imagem cristã hodierna que se tem: um deus bom e misericordioso. Contudo, o termo ainda pode ser encarado como o não-humano, dirigindo-se a algo mágico, sobrenatural e extraterreno ou, até mesmo, ficcional. Esse deus desumano = não-humano pode ser bom como os anjos ou mau como os demônios, ambos seres igualmente ficcionais, ou pode ainda ser uma mistura dos dois, tal como monstros que são bonzinhos ou príncipes que são malvados, isto para citar a cinematografia de animação moderna.
Os pontos acima citados são apenas dois dos muitos e múltiplos significados que podem ser encontrados na obra de Chico Buarque, Budapeste.